A praia de Botafogo parece deserta sob as estrelas. Andando na areia, não há ninguém além daquele velho sonhador. Sentindo a água nos pés, já não sabe se o que contempla é a extensão do firmamento, um velho delírio, ou uma nova utopia. Ele gosta de unicórnios. Alguém um dia disse para ele que o cavalo era o ser mais belo da Criação, justamente por não ter nada de mais nem de menos. Discordo, pensava ele. Faltava algo, e os gregos lhe deram o ajuste final. Agora sim, era perfeito olhar para o unicórnio. Diziam que só donzelas poderiam ter o prazer de sua companhia, mas não importava. Não fazia diferença quem estava ao seu lado. Era ele o grande diferencial, pois tudo na sua vida dependia de si mesmo. Até mesmo a influencia dos outros. Só permitia a entrada de quem pudesse fazer sua vida ser chacoalhada. E ele permitia essa chacoalhada. Permitia que os outros fizessem a diferença em sua vida, amando-os, venerando-os, deixando-os.
Aquela praia deserta o cansava, sempre tão diferente na sua incansável rotina. Resolveu sair dali. Calçou as sandálias e foi andando em direção à praça. Chovera mais cedo, e ele pensou na ironia de ter seus pés sujos pela lama de Botafogo. Fugiu da roça para encontrar a lama de Botafogo. Mas que prazer diferente. Sentado num dos bancos, ponderou quanto tinha na carteira, e se perderia muito se fosse assaltado. Talvez nem fizesse diferença, mas sabia que não seria. A cada novo rosto que cruzava o seu olhar, tinha a impressão de ver não um ladrão, mas um incompreendido; não uma milionária, mas um desperdício. A vida sendo julgada, e não vivida. Ele era senhor da vida dos outros enquanto participantes da sua própria. Da deles e da dele. Eles estão na minha vida, eu na deles, mas sem domínios, delirava. Mal sabia ele que a próxima pessoa a passar ali seria Ela. Sem nome e sem voz, apenas roupas e dentes, num sorriso que lhe lembrara um arco-íris. Passou por ele, balançando os cabelos cor d'areia da praia recém-deixada para trás. Aroma de odalisca do oriente, pensou ele, se lembrando de um poema do seu escritor preferido. E resolveu que já era hora de recomeçar. Levantou, bateu os pés no chão para tirar a poeira, e seguiu em frente. Na direção dela?, pensou, e acabou encontrando-a na sua sorveteria preferida, o único pecado ao qual ele não se dignava a dizer não. E, no convite para uma banana split, e quem sabe um café no Starbucks amanhã?, ele descobriu seu nome. Esperança

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