sábado, 8 de agosto de 2009

Começar do nada*

Era engraçado observar as pessoas em Botafogo. Ele pensava se na Zona Oeste também seria assim. Ou na Zona Norte. Tentou se lembrar da vez em que foi ao Norte Shopping com sua namorada mais santa, ver filme de tiro. Não lembrou. Só sabia do agora. A antiga namorada agora está fazendo outra pessoa feliz, e ele fica feliz também. Só lamenta a amizade perdida, mas não é isso o que o incomoda. Nesse momento a angústia que o domina é a da, er, ele não sabia dar um nome, mas sentia uma inquietação toda vez que entrava no Praia Shopping. Em frente à praia. Se achava deslocado, vestindo a roupa errada, pisando errado, balançando os braços numa sintonia bizarra. Era difícil de entender. Se via diferente de todos que ali estavam. Ou quase todos. Na última vez em que foi lá, encontrou um homem tocando violão em troca de trocados na porta do shopping. O homem tocava bem, surpreendentemente bem. E o contraste era triste.

Dentro, parecia haver lugar apenas para um tipo de pessoa. Eles eram a maioria, ele era o estranho. Ali, naquele lugar, era ele o diferente, o exótico, o raro. Como era estranho ver pessoas pagando até dois dígitos por um mísero chocolate, enquanto outros queriam a metade para comprar o almoço. Na verdade não era estranho. Era triste. E ele pensou na razão daquilo tudo. Pensou que talvez Deus não gostasse dos pobres, mas descartou logo essa idéia. Deus os tinha como preferidos, e um céu feito especialmente para eles. Pensou em culpar aos homens, aos mais ricos. Ficou se perguntando sobre às vezes em que desejou ser milionário, em que quis ser podre de rico. Agora ele sabia que para cada milhão que ele ganhasse precisaria deixar milhares de pessoas mais pobres. Ficou feliz ao constatar que ganhava uma merreca, e que com essa merreca conseguia ajudar a alguns pobres.

Continuou seu passeio, até chegar ao andar do banco. No caminho, viu um restaurante. Certos pratos custavam mais do que a sua bolsa. E viu meninas com bolsas mais caras do que a sua bolsa. E viu que essas bolsas não carregavam nada além de uma maquiagem mais cara do que a bolsa. E cantarolou um verso: "será que ninguém vê o caos em que vivemos? Os jovens são tão jovens e fica tudo por isso mesmo". Mas não chorou.

No banco viu mais uma vez sua conta vazia: o dinheiro ainda não havia caído.

Na volta, se distraiu olhando uma loja de videogames. Acabou tropeçando numa garota que carregava vários livros, fazendo-a cair. No meio das desculpas, ouviu o início de um choro já preparado há muito tempo.
- Droga!, tudo dá errado.
- Hey, calma. Você não precisa chorar.
- Claro que preciso. Nada na minha vida funciona. Não consigo aprender nada, o vestibular tá chegando, eu quero a carreira mais difícil, meus pais vivem brigando, meu irmão não me deixa em paz, ninguém gosta de mim...
- Ah, mas eu tenho certeza de que muita gente gosta de você. Sem dúvida seus pais te amam, e seu irmão também. E Deus te ama também, e nunca vai deixar de te amar.

Ela foi se levantando, e disse pra ele:

- Quem é você? Como pode surgir do nada e me incentivar assim, me ajudar a levantar? Qualquer outra pessoa daqui nem se importaria em olhar pra trás...
- Talvez seja por isso: não sou daqui.
- De onde você é?

E então, ali, naquele lugar, ele fez a diferença, o exótico, o raro.

E saíram os dois para continuar a conversa ao som do velho do violão.




* Todas as minhas postagens começam do nada, sem saber aonde vão.

3 comentários:

Unknown disse...

Oláááá blogueiro da dom de Deus!
Que história linda! *-*
Vc pode subsituir a Stephanie Meyer futuramente, sabia?

Brincadeirinhas a parte, cara, vc manda mto bem! :D

Parebééns :)

Unknown disse...

Como eu me surpreendo com vocÊ, meu filhotinho querido!
Tenho certeza, já disse várias vezes e vou morrer repetindo; morrer não, pois vou ver acontecer: vc ainda vai publicar um maravilhoso best-seller!!!!
Vc é demais!
Meu orgulho e meu tesouro!
Beijos da
mamãe que ama o filhotinho!

Rafaga disse...
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